domingo, 15 de junho de 2014

Chuva

Som de Chuuuvvvaaaa
Telha de Amianto
Sopro de poeira, pedras pequenas
Vento de gotas, encanto.
Um leve cheiro
Úmido como névoa para folhas
Botou saudades no meu ouvido.


Casinha

Estranho voltar depois de trinta anos
À rua onde vivi toda a minha infância.
Minha casa, minha casinha.
Agacho-me e seguro-a
Entre o polegar e o indicador.


Sangue

Minha boca diz, Sangue.
E já uma realidade quente e líquida
Densa  e com cheiro vermelho-vida
Espalha-se  pelo ar.

Bendito Corpo


Ai de ti minh'alma
Se não fossem todas as sensações do meu corpo.
Sem elas, te reconhecerias? Saberias não serdes deste mundo?
Bendito seja o meu corpo!
Perecível, tão frágil ao toque do tempo, ao sopro dos ventos
Mas que se reconstrói a cada novo segundo, a cada novo estímulo
Sempre marcado pelos golpes do aqui agora.
Tempo, cicatrizes.
Ah minh'alma
Meu bom corpo, tua casa, teu útero
Te enche de sensações que levarás contigo pela eternidade.


Poema Para Um Amor Humano


Quando entraste pela minha retina adentro,
Os ventos quentes do norte sopraram uma chama
Que flutuou na minha alma e pousou em minhas mãos.
Desde então, levanto-a sobre a cabeça para iluminar nossos caminhos
Enquanto andamos ao lado de Deus, com quem conversamos sobre criador e criaturas.
Eu e tu ouvimos atentamente o que Ele nos diz sobre o que somos, para que fomos criados,
E sobre as delícias criadas para o homem fora do paraíso.
Ele nos deu como testemunha desse encontro, o Amor.
Sendo pedaço da Sua própria carne, o Amor foi colocado entre nós.
Menino travesso, o Amor rasgou o ventre de Deus
E nos puxou para fora, para a vida.
Desde então andamos os três, de mãos dadas vivendo o mundo com seus ciclos, seu peso, sua atmosfera e em nossos corpos, todas as sensações. 

segunda-feira, 20 de julho de 2009

- Mitologia

Meu primo e eu olhávamos o mar revolto.
Tínhamos uns treze anos.
Á nossa frente, uma tempestade no fundo da paisagem,
enquanto o sol nos queimava as costas.
Ele quebrou o silêncio com uma pergunta
- Sabe porquê o mar está bravo?
Respondi que não e então ele afirmou
- É que lá atrás (e apontou para a linha do horizonte)
tem um gigante que bate os braços com toda a força
contra as águas do mar.
Nunca mais me livrei dessa verdade.

- Pluma Azul

Sobre dois montes, os exércitos esperam
Num alinhamento tenso o momento da batalha.
Entre eles, um vale profundo e negro.
Nesse vale, encontrarão a glória e a morte, irmãs gêmeas.
O céu está muito azul e com poucas núvens.
Uma colônia de formigas recolhe
Os restos de comida deixados pelo soldados.
Então, sob o som de tambores, trombetas e urros
Cavalos e cavaleiros avançam pelas verdes encostas
Até serem engolidos pela profunda escuridão.
Lá, ao invés de inimigos, os soldados encontram
Travesseiros muito brancos, limpos e macios
E dormem tranquilamente.